Home CulturaAté onde a opinião de um coach vale mais do que uma história de vida?

Até onde a opinião de um coach vale mais do que uma história de vida?

by Fala ai Goiás

O recente embate entre a cantora e empresária Jojo Todynho e uma coach de etiqueta social reacendeu um debate antigo, mas cada vez mais atual: qual é o real limite da autoridade de um coach sobre a vida, a identidade e a trajetória de outra pessoa?

A coach, ao comentar publicamente sobre a forma de vestir e de se portar de Jojo, classificou a artista como “brega”, ignorando completamente o contexto social, econômico e humano que moldou sua história. A crítica, feita nas redes sociais, foi rapidamente rebatida por Jojo, que lembrou que enquanto alguns ensinavam “etiqueta”, ela estava tentando sobreviver.

Para Jojo, ser chique não está em seguir padrões impostos, mas em ser quem se é, reconhecendo o próprio caminho, com suas dores, desafios e conquistas. A cantora também questionou a legitimidade de muitos coaches, afirmando que parte deles não construiu, na prática, aquilo que ensina, transformando o coaching em uma alternativa de renda após frustrações profissionais.

O boom do coaching e a linha tênue entre orientação e julgamento

O coaching de vida explodiu em popularidade na última década. Pessoas de diferentes perfis — de CEOs a estudantes — chegam a pagar valores que variam de US$ 100 a mais de US$ 1.000 por sessão. Diante disso, torna-se essencial compreender exatamente o que está sendo contratado.

Em teoria, um coach de vida é um profissional que auxilia na definição de metas, superação de obstáculos e criação de planos de ação voltados ao crescimento pessoal ou profissional. Diferentemente de terapeutas ou psicólogos, coaches não tratam traumas ou questões de saúde mental; seu foco está no presente e no futuro.

O problema surge quando essa atuação ultrapassa o campo da orientação e entra no território do julgamento público, da exposição e da crítica pessoal — especialmente quando direcionada a alguém com uma trajetória marcada por vulnerabilidades sociais.

Ética profissional ou palco digital?

O caso levanta uma questão central: é ético um profissional que se apresenta como orientador do comportamento humano utilizar as redes sociais para criticar publicamente outra pessoa?

Se o coaching propõe desenvolvimento, crescimento e consciência, a exposição e o julgamento não caminham na direção oposta desses princípios?

Ao invés de oferecer reflexão, empatia ou análise contextual, a crítica direcionada a Jojo acabou reforçando estigmas e padrões sociais historicamente usados para deslegitimar trajetórias que fogem do “modelo ideal”.

Profissão da moda ou ferramenta legítima?

Nas redes sociais, a sensação é de que “todo mundo é coach”. A profissão ganhou visibilidade, mas também desconfiança. Ainda assim, é importante reconhecer que o coaching não é um fenômeno recente. O modelo moderno foi popularizado por Tony Robbins há quase 50 anos, e o conceito de orientar alguém rumo a objetivos existe desde o século XIX.

O que muda, hoje, é o ambiente digital, onde autoridade muitas vezes se constrói mais pela estética do discurso do que pela profundidade da experiência.

Individualidade não se padroniza

Cada pessoa possui qualidades, limites, talentos e formas próprias de prosperar. Para alguns, o sucesso está no trabalho remoto; para outros, no escritório. Seguir fórmulas prontas pode até oferecer direção, mas também pode padronizar sonhos, inibir criatividade e limitar novas experiências.

Delegar completamente planos, ideias e expectativas a terceiros — sejam coaches ou qualquer outro “especialista” — pode significar abrir mão da própria identidade e da capacidade de pensar de forma autônoma.

No fim, quem conduz a própria vida?

O debate provocado por Jojo Todynho vai além de um conflito nas redes sociais. Ele expõe uma pergunta essencial do nosso tempo: quem tem o direito de definir o que é sucesso, elegância, evolução ou fracasso?

Talvez a resposta esteja menos em seguir discursos prontos e mais em reconhecer que liberdade é ser quem se é, com história, contexto e escolhas próprias — mesmo quando elas não cabem em manuais de etiqueta ou em cursos motivacionais.

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